
A sociedade pós-moderna tem tentado reinventar a igreja e ressignificar a prática da fé para responder às necessidades do século XXI. Mas será que essa reinvenção leva em conta as necessidades reais da humanidade? Ou são apenas desejos terrenos, instigados pela natureza humana inflamada pelo pecado?
Uma coisa é certa: a Palavra de Deus não muda, e a missão da igreja também não. Embora novos desafios tenham surgido ao longo dos tempos, precisamos enfrentá-los à luz da Bíblia. Este artigo aborda a vida de um homem que viveu nos primeiros dias da era cristã, viu as reais necessidades da igreja e se dispôs a ajudar com seus bens materiais para socorrer pessoas, sem deixar de cuidar do espiritual. Ele ficou conhecido como Barnabé.
Quem foi Barnabé?
Barnabé era um levita — da mesma tribo de Moisés e do sumo sacerdote Arão — e, portanto, um israelita com uma vocação religiosa por nascimento. No entanto, não sabemos se ele cuidava de alguma liturgia ou se exerceu algum cargo religioso no judaísmo, pois a Bíblia não dá detalhes sobre sua fé antes de sua conversão ao cristianismo.
Sabemos, porém, que Barnabé era natural de Chipre, uma ilha rica e estratégica no mar Mediterrâneo, identificada no Antigo Testamento como a terra de Quitim. Famosa por suas minas de cobre e por sua madeira, tornou-se província romana em 58 a.C. e foi um dos primeiros refúgios e campos de missão da Igreja Primitiva.
Conhecido primeiramente pelo nome de José, Barnabé foi um dos primeiros líderes da igreja, além dos apóstolos. Tinha uma personalidade forte e um zelo especial em exortar e animar os irmãos. Era um homem abastado. Mas, sendo um dos primeiros crentes em Jesus, viu de perto as dificuldades que a igreja enfrentava, tanto financeiramente quanto em meio à perseguição.
Então, tomou uma decisão importante: vendeu seus bens e depositou o dinheiro da venda aos pés dos apóstolos. Ou seja, doou seus recursos para que fossem utilizados a serviço do Reino de Deus. Por isso, os apóstolos passaram a chamá-lo de Barnabé, que significa “filho da consolação”.
Então José, chamado pelos apóstolos Barnabé (que, traduzido, é filho da consolação), levita, natural de Chipre. Possuindo uma herdade, vendeu-a, e trouxe o preço, e o depositou aos pés dos apóstolos (Atos 4:36,37 – ACF).
Observando esses primeiros fatos sobre a vida de Barnabé, já podemos constatar uma característica cristã muito importante na vida desse servo de Deus: a abnegação.
Mas o que significa isso?
Ser abnegado significa renunciar aos próprios desejos, bens ou interesses para ajudar o próximo. É uma pessoa que demonstra desapego, generosidade e disposição para colocar o bem-estar dos outros acima do seu próprio. A atitude de Barnabé não foi um evento isolado, sobre alguém que apareceu, fez um favor e foi embora. É a trajetória de um homem que entendeu o evangelho.
A igreja estava apenas começando, mas o sentimento de pertencimento pulsava forte no coração de cada crente, bem como o senso de responsabilidade. Barnabé renunciou às suas posses para que outros fossem socorridos. Contudo, ele sabia que isso não resolveria todos os problemas. Nosso benfeitor entendeu que, para aquela obra continuar acontecendo, era necessário o engajamento direto na missão da igreja como Jesus ensinou:
Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação do mundo. Amém! (Mateus 28:19–20 – ACF)
Barnabé, juntamente com os irmãos do primeiro século, nos ensina que a igreja pode responder prontamente aos desafios que lhe são impostos sem deixar de priorizar a evangelização e o cuidado espiritual do corpo de Cristo. Por isso, ele se entrega ao serviço da igreja ajudando aos novos convertidos, evangelizando, ensinando e formando novos líderes.
Eventos marcantes da vida de Barnabé
Barnabé não é lembrado apenas como um homem generoso, que renunciou a seus bens para socorrer outros, mas como um servo fiel. Barnabé era tão altamente considerado, e tanto confiavam no seu bom senso e integridade de caráter, que foi várias vezes encarregado de delicadas e importantes missões. Sua dedicação inspirou a vida de muitas pessoas que podemos chamar de “filhos de Barnabé”. Nomes conhecidos no Novo Testamento, como Saulo e João Marcos, foram influenciados por ele e são evidências de que sua dedicação valeu a pena. Veremos a seguir que o seu engajamento na missão da igreja produziu frutos que ultrapassaram o seu próprio tempo.
O Cuidado com o novo convertido
O capítulo 9 do livro de Atos dos Apóstolos narra a conversão de Saulo de Tarso. Ele estava em uma missão para prender os membros da igreja quando foi interceptado por Jesus. Ao compreender que estava lutando contra Deus, arrependeu-se e se converteu verdadeiramente. Porém, por causa de seu histórico como perseguidor, foi difícil conseguir uma aproximação com a igreja. Foi nesse momento que Barnabé entrou em cena para convencer os irmãos a receberem aquele novo convertido como membro da igreja em Jerusalém.
Então Barnabé, tomando-o consigo, o trouxe aos apóstolos, e lhes contou como no caminho ele vira ao Senhor e lhe falara, e como em Damasco falara ousadamente no nome de Jesus (Atos 9:27 – ACF).
O discipulado na igreja em Antioquia
Quando a perseguição se intensificou em Jerusalém, muitos crentes optaram por fugir para outras regiões onde pudessem ter mais liberdade para viver sua fé em Jesus. Nesse movimento, uma cidade chamada Antioquia ganhou protagonismo. Os crentes que chegaram ali continuaram falando de Jesus, e muitas pessoas se converteram. Quando os apóstolos souberam dessa boa notícia, enviaram Barnabé para discipular esses novos convertidos e cuidar da igreja que estava crescendo (At 11.19–26).
E chegou a fama destas coisas aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé a Antioquia (Atos 11:22 – ACF).
O trabalho de Barnabé em Antioquia foi tão zeloso que Lucas escreveu a seu respeito: “era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé” (At 11.24). A igreja cresceu, e ele precisou de ajuda. Para isso, recorreu a Saulo, que passaria a ser conhecido como Paulo. Nascia ali uma parceria que, mais tarde, iria impactar o mundo por meio da pregação da Palavra de Deus.
E partiu Barnabé para Tarso, a buscar Saulo; e, achando-o, o conduziu para Antioquia. E sucedeu que todo um ano se reuniram naquela igreja, e ensinaram muita gente; e em Antioquia foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos (Atos 11:25,26 – ACF).
O socorro aos necessitados
Já vimos no início deste artigo como Barnabé vendeu propriedades para ajudar a igreja. Posteriormente, o capítulo 11 do livro de Atos dos Apóstolos relata um período de grande fome. Diante dessa necessidade, os crentes de Antioquia resolveram arrecadar recursos e enviá-los aos irmãos que moravam na região da Judeia. Decidiu-se, então, que Barnabé seria a pessoa ideal para cumprir essa missão:
E os discípulos determinaram mandar, cada um conforme o que pudesse, socorro aos irmãos que habitavam na Judeia. O que eles com efeito fizeram, enviando-o aos anciãos por mão de Barnabé e de Saulo (Atos 11:29,30 – ACF).
O chamado missionário
Fica claro, até aqui, que a liderança de Barnabé, juntamente com a dedicação da igreja, produziu muitos frutos. Contudo, maiores desafios ainda estavam por vir.
E Barnabé e Saulo, havendo terminado aquele serviço, voltaram de Jerusalém, levando também consigo a João, que tinha por sobrenome Marcos (Atos 12:25 – ACF).
O capítulo 13 de Atos dos Apóstolos narra um dos momentos mais importantes da Igreja Primitiva. O Senhor separaria homens cheios do Espírito Santo para espalhar a semente do evangelho pelo mundo conhecido naquela época. Entre eles estavam Barnabé e Saulo:
E na igreja que estava em Antioquia havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé e Simeão chamado Níger, e Lúcio, cireneu, e Manaém, que fora criado com Herodes o tetrarca, e Saulo. E, servindo eles ao Senhor, e jejuando, disse o Espírito Santo: Apartai-me a Barnabé e a Saulo para a obra a que os tenho chamado. Então, jejuando e orando, e pondo sobre eles as mãos, os despediram (Atos 13:1-3 – ACF).
Nascia ali o que ficou conhecido como a “Primeira Viagem Missionária de Paulo”. Porém, Barnabé estava junto. Essa viagem resultou em muitas conversões, no nascimento de novas igrejas e na formação de vários líderes para cuidar do ensino e da vida das novas comunidades.
O Barnabé que havia sido enviado pelos apóstolos para cuidar da igreja em Antioquia agora se unia a Paulo e participava da formação de novos líderes para cuidar das igrejas que estavam nascendo. O homem que antes cuidava de uma igreja agora ajudava a preparar pessoas para cuidar de muitas outras.
O companheiro nas aflições
A perseguição à mensagem do evangelho nos dias de Barnabé era constante. Ela vinha, muitas vezes, do próprio povo judeu, a quem eles anunciavam a mensagem. Muitos creram, mas a rejeição também foi significativa. Então, chegou o momento em que os pregadores precisaram levar a semente do evangelho também a outros povos. Barnabé e Paulo foram companheiros nessas aflições, enfrentando juntos as dificuldades e os sofrimentos por amor ao evangelho:
Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era mister que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e não vos julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios; […] Mas os judeus incitaram algumas mulheres religiosas e honestas, e os principais da cidade, e levantaram perseguição contra Paulo e Barnabé, e os lançaram fora dos seus termos (Atos 13:46,50 – ACF).
O pacificador durante as crises
Outro momento determinante para a história da igreja foi o Concílio de Jerusalém, narrado no capítulo 15 de Atos dos Apóstolos. Com o crescimento da igreja, surgiram também os debates teológicos. Entre eles estava a tentativa de impor práticas do judaísmo aos gentios que estavam se convertendo ao cristianismo:
Tendo tido Paulo e Barnabé não pequena discussão e contenda contra eles, resolveu-se que Paulo e Barnabé, e alguns outros dentre eles, subissem a Jerusalém, aos apóstolos e aos anciãos, sobre aquela questão (Atos 15:2 – ACF)
Os testemunhos que Barnabé e Paulo apresentaram sobre os atos poderosos de Deus entre os gentios convenceram os apóstolos de que o evangelho era para todos:
Então toda a multidão se calou e escutava a Barnabé e a Paulo, que contavam quão grandes sinais e prodígios Deus havia feito por meio deles entre os gentios (Atos 15:12 – ACF).
Mais uma vez, as palavras de Jesus ecoam por meio da vida de Barnabé para edificar a igreja: “Bem-aventurados os pacificadores…” (Mt 5.9). A participação de Barnabé e Paulo ajudou a pacificar a igreja e a promover a reconciliação entre gentios e judeus, formando um só corpo, lavado e remido pelo sangue de Jesus.
Conclusão:
Barnabé entendeu o evangelho. Ele tinha uma cosmovisão cristã. Era crente em palavras e em obras. A Bíblia não nos diz se Barnabé teve filhos biológicos ou esposa, mas sua fé, sua fidelidade a Deus e seu zelo pela igreja geraram muitos filhos espirituais.
Hoje, somos chamados a agir como Barnabé: ajudando os necessitados, contribuindo financeiramente com a igreja, evangelizando, consolidando novos convertidos, fazendo missões, pacificando crises e enfrentando tantos outros desafios que surgem constantemente.
Esta é a vida de quem entendeu o evangelho, desenvolveu um verdadeiro senso de pertencimento e vive engajado na igreja com responsabilidade. Esta é a vida que Jesus deseja para todos nós. É hora de fazer parte dessa obra. É hora de sermos filhos e filhas de Barnabé, filhos da consolação, pessoas dispostas a servir, cuidar, encorajar e formar outras vidas para o Reino de Deus.